
As eleições municipais desse ano, assim como em todas as outras eleições, mobilizam a mídia para um anedotário de um evento multifacetado, misto de festa, acordo, combate e ritual. Curiosamente, não é de se estranhar como a vitória do prefeito eleito de São Gabriel da Cacheira, Pedro Garcia, foi tratada em tom de estranheza, da mesma forma que apresentamos nossos parentes calçados com sandálias havaianas ou aqueles calções listrados, como se a ascensão ao cargo fosse somente a legitimação da aculturação.
Nesse contexto, além de Tariano ou Baniwa, os indígenas ganham outras identidades: liberais ou capitalistas; em transição da posição onde está: à esquerda, à direita ou ao centro. Sabe-se que candidaturas reproduzem alguns arranjos conhecidos. Representantes "legítimos" de seu povo, indicados pela comunidade ou organizações indígenas, estariam ligados aos partidos tradicionalmente situados à esquerda política.
Já candidatos isolados, com projetos políticos próprios, estariam filiados a partidos clientelistas. Além desse processo de transição para a cultura ocidentalizada tão exacerbada na nossa sociedade, precisam superar a mecânica da estrutura partidária. Para vencer, o índio Tariano petista compôs aliança com cinco partidos: PV, PP, PSB, PPS e PDT, e contava com um índio de outra etnia na chapa vencedora, o vice André Baniwa (PV), formando a coligação "Administração para Todos".
A coligação liderada por Pedro conquistou 51,68% dos votos válidos, 6.366 votos recebidos de 23 grupos étnicos e de não-índios, em um município que, de acordo com o censo de 2000 do IBGE, tem a maior população indígena do Brasil, com 76,3% do total de habitantes. Supõe-se que, querendo ou não, fora militares, a maioria dos habitantes desse município localizado em região conhecida como Cabeça do cachorro, no Amazonas, na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Venezuela, tenha descendência indígena.
Considerando tudo isso, o mais importante é lembrar que os povos indígenas não estão estáticos em contemplação. Na verdade, têm pressa.Tarianos e Baniwas não estão sozinhos. Na ausência de dados recentes, recorro às eleições de 2000, quando foram mais de 350 índios pleiteando vagas nas eleições municipais - sendo 13 deles para prefeito - e 80 se elegeram.
No Amazonas, a Câmara Municipal de São Gabriel da Cachoeira, sequer citada nas reportagens, já é maioria indígena há tempos, composta por Tukano, Baniwa e Baré. Temos vereadores Tikunas em Santo Antonio do Içá, Benjamim Constant e Tabatinga; Mura, em Autazes; Marubo, em Atalaia do Norte; Sateré-Mawé, em Parintins; e Kambeba, em Alvarães. São muitos, como os respectivos povos que representam. Estes, aliás, muitas vezes esquecidos como eleitores que merecem os mesmos esclarecimentos que os demais. Aliás, que o digam as autoridades.
Em simulações de votação realizadas em Roraima, o presidente do TRE espantava-se com a velocidade do voto indígena na urna eletrônica: 22 segundos contra mais de um minuto de muito eleitor branco.Considerando esse novo aspecto, as propostas dos prefeitos índios de São Gabriel da Cachoeira se aproximam da dos brancos, por serem, antes de tudo, humanitárias. Apelos por saúde, educação, segurança, ações do Poder Público são conceitos que se aproximam muito da cultura dominante ou sociedade envolvente. Ninguém diz que, antes de tudo, esses homens e mulheres querem viver!
Nenhum comentário:
Postar um comentário