domingo, 19 de outubro de 2008

O árabe como um parente distante!

É difícil imaginar a literatura de Milton Hatoum sem a presença da cultura árabe. De todos os escritores amazonenses, este é o que mais gosto. Não somente por sua poética, mas principalmente pela força humana que dá aos seus personagens. Estes, sem nunca tê-los imaginados, parece que sempre os conheci, que convivo com eles e pelos quais alimento um amor profundo.

Milton usa os recursos literários aos quais se dedicou a estudar antes de iniciar a carreira, quando ainda era professor universitário, com destreza. Descendente de libaneses, a força humana talvez tenha sido um encontro em sua própria história. Assim, o escritor passou a fazer parte da tradição literária do País, a ponto de tornar-se matéria-prima para a compreensão da percepção que a sociedade faz sobre imigrantes de 'um certo oriente'.

Apaixonado por literatura, o pesquisador Valter Luciano Gonçalves Villar percorreu um caminho teórico que trespassa autores de toda história brasileira para depois focar-se em duas obras para produzir o trabalho “A Presença Árabe na Literatura Brasileira: De Jorge Amado a Milton Hatoum”, como dissertação para o Mestrado em Literatura Brasileira da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Graduado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Villar realizou sua pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a orientação da professora Wilma Martins de Mendonça, coordenadora do grupo de pesquisa “O Brasil em sua Literatura: Memória e Identidade Cultural”, da UFPB.

Grandes nomes da literatura, como Machado de Assis, Castro Alves, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, se referiram, às vezes, assiduamente, como o escritor Jorge Amado, à presença do imigrante árabe em suas letras poéticas. Mais a fundo, encontrou insinuações da presença árabe desde as cartas inaugurais, como a do escrivão Caminha e a do Piloto Anônimo, passando pelo Padre José de Anchieta, os colonizadores Gabriel Soares de Souza e Pero de Magalhães Gandavo, além do barroco Gregório de Matos.

Em Jorge Amado, o árabe está em vinte e quatro romances, dado que foi definitivo para o autor delimitar as obras que pretendia estudar. Gabriela, cravo e canela foi escolhido pelo fato de ser o primeiro romance nacional em que um personagem árabe, no caso o Nacib, nos é apresentado como protagonista. Dois Irmãos, a segunda escolha, pela força poética e humana que representa o personagem Halim. Posteriormente, constatou que havia muita ligação entre esses dois personagens.

Villar descobriu que nossos poetas, escritores nacionais, olham para o árabe como um brasileiro, como nosso irmão, como um parente que chegou de terras distantes. É uma empatia geral!

Par ele, esse discurso estereotipado é produto da mídia afiliada aos interesses europeus e estadunidenses, como se mostra, por exemplo, a Globo, a Veja, o Estadão, entre outros. Mesmo os estigmas mais comuns aos árabes, como a avidez no comércio, são retratados positivamente por esses dois autores.

Em Jorge Amado, o comércio dos árabes, a mascatearia, é comparado à magia, quando os mascates, para venderem, encantam as pessoas com sua atenção, seu respeito, seu interesse pelo outro, causando em seus fregueses espécies de deslumbramentos diante das fabulosas e encantadoras histórias que os árabes contam aos seus clientes. Em Milton Hatoum, o comércio é visto como uma oportunidade de se fazer relações de amizade, como várias vezes demonstra o personagem Halim.

O estudo mostra ainda que Jorge Amado foi o pioneiro, o antecipador dessas questões identitárias, especificamente árabe. Soube como ninguém, dizer o quanto o árabe é brasileiro e o quanto o brasileiro simpatiza com esses parentes distantes. Mostrou o modo amoroso dos árabes, sua psicologia, sua forma de lidar com a tristeza, com a alegria, sua religiosidade, como nos exemplifica o fabuloso Fadul, personagem de Tocaia Grande, e seus esforços em se aclimatar às terras brasileiras, suas profundas gratidões pelas terras de adoção, sua honestidade, sua brandura, enfim, todos os qualificativos positivos. Que digam os iraquianos, os libaneses, os afegãos, os palestinos, os iranianos, constantemente agredidos, caluniados e ameaçados por esses “colonistas midiáticos”, para usar uma expressão do jornalista Paulo Henrique Amorim.


Trilhando esse mesmo caminho, encontramos nos dias atuais o melhor de nossa tradição literária: o escritor Milton Hatoum. Respeitando a opção estética amadiana, Milton enriquece esse olhar sobre o árabe. Na sua prosa, observamos o quanto seu estilo, sua estética, fala a verdade, sem ter a pretensão de falar a verdade. Universaliza o regional de maneira tão esmerada que olhar, por exemplo, para o drama do árabe Halim, é olhar para o drama de qualquer cidadão do mundo. A plasticidade, a mistura de sentidos, o uso adequado de certas expressões regionais, enfim, um conjunto de elaborações formais que fazem dele um dos escritores mais respeitado no universo literário, não só no Brasil, como em todo o mundo, como atestam as variadas traduções de seus romances.

Ao viver o mundo literário de dois mestres, Villar foi posicionado e reposicionado no local e no universal. No decorrer do trabalho, não deixou de comover-se. Associou sua vida ao tema lembrando-se de conhecidos, vizinhos e amigos no município de Itacoatiara, onde viveu na juventude, especialmente, de alguém parecido com o personagem Halim, de Dois Irmãos, com quem diz estar em dívida de gratidão.

Em tempos de guerras étnicas e crises financeiras, o trabalho de Villar traz um novo, sensível e delicado aprofundamento teórico sobre a questão árabe, fundamental para a compreensão do papel da identidade, dos deslocamentos e da comovente capacidade humana de recomeçar. Uma grata surpresa!


domingo, 12 de outubro de 2008

A vitória do parente Tariano!


As eleições municipais desse ano, assim como em todas as outras eleições, mobilizam a mídia para um anedotário de um evento multifacetado, misto de festa, acordo, combate e ritual. Curiosamente, não é de se estranhar como a vitória do prefeito eleito de São Gabriel da Cacheira, Pedro Garcia, foi tratada em tom de estranheza, da mesma forma que apresentamos nossos parentes calçados com sandálias havaianas ou aqueles calções listrados, como se a ascensão ao cargo fosse somente a legitimação da aculturação.

Nesse contexto, além de Tariano ou Baniwa, os indígenas ganham outras identidades: liberais ou capitalistas; em transição da posição onde está: à esquerda, à direita ou ao centro. Sabe-se que candidaturas reproduzem alguns arranjos conhecidos. Representantes "legítimos" de seu povo, indicados pela comunidade ou organizações indígenas, estariam ligados aos partidos tradicionalmente situados à esquerda política.

Já candidatos isolados, com projetos políticos próprios, estariam filiados a partidos clientelistas. Além desse processo de transição para a cultura ocidentalizada tão exacerbada na nossa sociedade, precisam superar a mecânica da estrutura partidária. Para vencer, o índio Tariano petista compôs aliança com cinco partidos: PV, PP, PSB, PPS e PDT, e contava com um índio de outra etnia na chapa vencedora, o vice André Baniwa (PV), formando a coligação "Administração para Todos".

A coligação liderada por Pedro conquistou 51,68% dos votos válidos, 6.366 votos recebidos de 23 grupos étnicos e de não-índios, em um município que, de acordo com o censo de 2000 do IBGE, tem a maior população indígena do Brasil, com 76,3% do total de habitantes. Supõe-se que, querendo ou não, fora militares, a maioria dos habitantes desse município localizado em região conhecida como Cabeça do cachorro, no Amazonas, na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Venezuela, tenha descendência indígena.

Considerando tudo isso, o mais importante é lembrar que os povos indígenas não estão estáticos em contemplação. Na verdade, têm pressa.Tarianos e Baniwas não estão sozinhos. Na ausência de dados recentes, recorro às eleições de 2000, quando foram mais de 350 índios pleiteando vagas nas eleições municipais - sendo 13 deles para prefeito - e 80 se elegeram.

No Amazonas, a Câmara Municipal de São Gabriel da Cachoeira, sequer citada nas reportagens, já é maioria indígena há tempos, composta por Tukano, Baniwa e Baré. Temos vereadores Tikunas em Santo Antonio do Içá, Benjamim Constant e Tabatinga; Mura, em Autazes; Marubo, em Atalaia do Norte; Sateré-Mawé, em Parintins; e Kambeba, em Alvarães. São muitos, como os respectivos povos que representam. Estes, aliás, muitas vezes esquecidos como eleitores que merecem os mesmos esclarecimentos que os demais. Aliás, que o digam as autoridades.

Em simulações de votação realizadas em Roraima, o presidente do TRE espantava-se com a velocidade do voto indígena na urna eletrônica: 22 segundos contra mais de um minuto de muito eleitor branco.Considerando esse novo aspecto, as propostas dos prefeitos índios de São Gabriel da Cachoeira se aproximam da dos brancos, por serem, antes de tudo, humanitárias. Apelos por saúde, educação, segurança, ações do Poder Público são conceitos que se aproximam muito da cultura dominante ou sociedade envolvente. Ninguém diz que, antes de tudo, esses homens e mulheres querem viver!

Janelas abertas

A informática facilitou a vida dos trabalhadores, mas ao mesmo tempo aprofundou as diferenças entre as classes sociais. Percebi como a frase, tão repetida sem conhecimento de causa no meu cotidiano acadêmico, é sentida na pele, ao conhecer três mulheres na manhã desta terça-feira (23), durante inauguração de um telecentro na comunidade Rio Piorini, no bairro Novo Israel.

Elas não lerão este artigo porque não sabem utilizar um computador ou desconhecem um vocabulário mínimo de inglês, a língua mais falada na Internet, que, por sua vez, nunca acessaram. Antes mesmo da inauguração do telecentro, procuravam uma vaga no curso de informática básica.

Nenhuma delas concluiu o antigo Segundo Grau, atual Ensino Médio, e, como chefes de família, enfrentam jornada dupla, como trabalhadoras e donas de casa. Contrariando o estigma do comodismo, ontem, foram brigar por novas oportunidades. Para mim, ressaltaram a vontade de conhecer um novo mundo: a internet. “Quero conhecer como funciona um computador, acessar a internet, coisa que nunca fiz”, disse-me Kedma Oliveira Vasconcelos, 21, ao sentar-se pela primeira vez à frente de um micro.

Há nove anos, Lúcia de Almeida usou um computador, porém, em uma única oportunidade. Desempregada, ela vislumbra a possibilidade de voltar ao mercado de trabalho tendo o curso de informática básica no currículo. “É o básico, mas nós não sabemos nem o básico”.

Cleidimar Patrícia de Oliveira, 24, quer melhorar seu desempenho e buscar novas oportunidades no emprego. “Quando me mandam fazer, muitas vezes não sei como. Quero conhecer mais”, afirma.

A iniciativa é inédita na comunidade Rio Piorini, no bairro Novo Israel. “Nosso bairro é escasso de tudo. Se buscamos qualquer atendimento, precisamos nos deslocar. Não temos escolas ou posto de saúde”, diz Maria Assunção da Silva Alfaia, 34, educadora popular e uma das coordenadoras do telecentro.

Fora das estruturas sociais da modernidade, estão condenadas a perder boas oportunidades de emprego. Sabe-se que, nesse mundo, as portas se fechem aos mais pobres e menos escolarizados. O filósofo e escritor francês Pierre Lévy acredita que o Brasil não é um excluído digital do mundo moderno. Para a inteligência coletiva, o principal obstáculo à participação não é a falta de computador, mas o analfabetismo e a falta de recursos culturais.

Imaginemos, em um País como o Brasil, o impacto que “o acesso” traria. A internet, ainda dialogando com Lévy, decerto aumenta as possibilidades de informação e controle democrático sobre as ações governamentais, bem como sobre as grandes empresas e todos os poderes de um modo geral. Porém, é preciso compreender o crescimento da internet como o prosseguimento do nascimento e da extensão da esfera pública que se manifestou com o desenvolvimento sucessivo da imprensa, do rádio e da televisão. O conjunto da sociedade se tornou um pouco mais visível, mais transparente, e, sobretudo, um número maior de pessoas puderam exprimir seus pontos de vista.

A internet permite, hoje, que milhões de pessoas se dirijam a um vasto público internacional - pessoas que não teriam podido publicar suas idéias nas mídias clássicas como a edição em papel, nos jornais ou em televisão. O TEXTOBR.COM surge como um movimento genuíno e convergente a essa análise.

Lévi me tranqüiliza, pois nessa hora de agonia, me auxilia na reflexão. Ao longo prazo, é possível que o uso da internet conduza a uma renovação da democracia participativa local e a formas de governo mundial mais eficazes do que as atuais. Evidentemente, nada disso acontecerá sem um comprometimento ativo dos cidadãos. A tecnologia se limita a abrir possibilidades. Somente a atuação das pessoas permite que elas se realizem bem.

Estou envergonhada. Sou cúmplice disso tudo. Pago uma internet cara, reclamo pouco da baixa qualidade do serviço e nem sabia que a comunidade Rio Piorini já estava asfaltada ou tinha abastecimento de energia. Na verdade, nem sabia onde ficava. Para a maioria, existem como uma massa de indesejáveis. Ao escrever esse texto, sofri porque não conseguia me definir pela identificação, ou não, das referidas entrevistadas. Decidi pelo sim. Ao me dar voz, quero oferecer a essas mulheres, minhas boas-vindas a um novo mundo!

Sobre o triunfo dos nerds!


Nas escolas católicas, padres acumulam a função de professor de religião e supervisores pedagógicos. Quando fazia o segundo grau, atual Ensino Médio, no Colégio Dom Bosco, fui surpreendida lendo "Morte: o grande momento da vida" e ouvi um sonoro: "quem é este herege?", para, em seguida, ser encaminhada para a psicóloga.
Fiquei chocada! Disse para a senhora que me avaliou que não entendia como não podia ler mais uma grande obra de Neil Gaiman, escritor e quadrinista britânico que usava sua literatura de forte apelo poético para tratar de temas clássicos, fazendo uso de mídias tradicionalmente discriminadas e levando-as a alcançar status de best-seler em países do "primeiro mundo". Deu certo, a ponto do fato não constar em meus registros.
De certa forma, conhecer Neil Gaiman foi determinante em minha vida. A admiração faz com que obra e autor façam parte do meu cotidiano, seja em referências literárias ou em experiências de vida. Acesso o blog journal.neilgaiman.com diariamente, tenho a coleção completa da graphic novel Sandman, obra que o elevou de escritor de história em quadrinhos à posição de autor, e dos livros publicados no Brasil, e minha fantasia favorita é Stardust, que narra a queda e a luta pela sobrevivência de uma estrela para falar de humanidade. Ele me apresentou um novo mundo, no meu próprio tempo. Falando sobre ele, me aproximo de qualquer pessoa no planeta. Para mim, ele abriu portas.
Mais sobre ele? Ao receber homenagem no Scream Movie Awards de 2007, subiu ao palco, de calça e jaqueta de couro e um perceptível óculos de grau, para dizer que aquele "era o triunfo dos nerds". Em Paraty, na Flip, deixou a sala vip e foi passear com a filha pela cidade. Tirou, inclusive, foto abraçado ao "curupira". Concretizando as expectativas manifestadas na internet, tanto por fãs quanto pelo próprio Gaiman em seu blog, ele ficou por seis horas consecutivas autografando livros e quadrinhos de leitores emocionados, que superaram mais de um dia de espera na fila, como expuseram membros de comunidades virtuais que freqüento. "Se antes o amava, agora o amo mais ainda" se tornou um novo tópico após o episódio. É o maior recordista de autógrafos da Flip.
A atitude chamou a atenção do escritor Tenório Teles, que esteve na Flip e hoje usou o exemplo "daquele autor" para falar do comprometimento que a categoria deve ter para com seus fãs, em reunião preparatória para o Festival Literário da Floresta (FliFloresta). "Esse rapaz deu um grande exemplo de humildade", reconheceu Tenório.
A citação me fez retomar uma análise crescente. Não é nova a constatação, mas não custa lembrar. Há escritores muito simpáticos que escrevem mal. E há escritores antipáticos que escrevem bem. Agora, nada como encontrar escritores simpáticos e competentes no que fazem. Podiam ser antipáticos se quisessem. Porém, são simpatias pessoais que garantem a priori simpatias literárias. Vide Tenório, que sequer sabia o nome do cara.
Nesse caso, transfiro o julgamento do mérito literário aos leitores, mas garanto que é sempre mais agradável conversar com um autor simpático, aquele que talvez nem se atribui importância indevida, do que com coroas que se tem em alta conta e enfiaram a modéstia no canto da bolsa de marca.
Cees Nooteboom, um outro grande autor, nem sei se simpático ou antipático, traduz meus sentimentos assim em Paraíso Perdido:"Ele costumava não suportar a maioria dos escritores como pessoas, sobretudo se admirava o trabalho deles. Mais valia jamais encontrá-los. Melhor seria se fossem de papel e estivessem encadernados."